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27 de Outubro de 2020

Icone show culturaLiteratura

Edição: Hugo Julião
05:56
20/09/2020

Como abrir uma janela para iluminar o mundo do autista

“Hoje alcei voo com o sol.

Não imaginava poder realizar algum dia o que os monges do século 19 afirmavam ser a melhor maneira de escrever: acompanhando o nascimento do sol.”

É assim que Margherite começa a narrar a história de Arthur, um Autista no Século XIX.

Através dessa personagem, a professora Maria Cristina Kupfer, do Instituto de Psicologia da USP, sintetiza a sua trajetória de mais de quatro décadas como uma das pioneiras no Brasil na pesquisa e no tratamento do autismo infantil sob a visão psicanalítica.

Nesta nova obra, Maria Cristina deixa a linguagem acadêmica para abrir espaço para um romance com uma narrativa poética, sensível, mas, ao mesmo tempo, com muita ciência.

“Minha primeira motivação foi a de oferecer uma outra visão do autismo, diferente da que está dominando atualmente." 

“Mas depois fui me animando com a escrita mais livre. Comecei a gostar de ver as ideias surgirem no próprio ato de escrever.”

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Por Leila Kiyomura, repórter, trabalha no Jornal da USP desde 1993 (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)

Esse ato, segundo a professora, foi movido por um desejo de reparação.

“Foram muitas as crianças ditas autistas fechadas que vi em minha vida profissional, mas não foram muitas as que vi retomarem o desenvolvimento rumo a uma vida no interior da comunidade dos homens e mulheres de nosso tempo”, observa.

“Tive então vontade de recriá-las na ficção, já que não pude ajudar seus pais a reinventá-las.

Para imaginar Arthur, fiz um amálgama de tudo que vi, das intervenções bem e mal-sucedidas que fiz ou vi fazerem, dos traços, idiossincrasias, das manifestações subjetivas que tive a alegria de presenciar. E dei a ele um destino de escritor, que sonhei para muitos.

Precisava, para justificar seus atos e transformações, de uma teoria norteadora. Mas não queria engessar minha ficção com ela, estava decidida a falar sobre minhas ideias de modo livre.”

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A professora Maria Cristina Kupfer, pioneira no tratamento do autismo infantil sob a visão psicanalítica (Foto: Pedro Napolitano Prata)

Arthur, um Autista no Século XIX convida o leitor a peregrinar por 268 páginas, caminhar na quietude de Laterre, uma vila na França, observar as pessoas, a natureza, refletir sobre o tempo.

E a buscar nessa criança autista, que no século 19 é chamada de “idiota ou filho do diabo”, a compreensão de um ser que não fala, que parece não ouvir, aparentemente ausente, que se ilumina quando ouve Dois Arabescos, de Claude Debussy, ou quando folheia livros contemplando as gravuras e as letras.

 

Certo é que Arthur intriga o leitor com suas crises de fúria ou com o seu silêncio.

Impossível parar de ler. Com suas diferenças, o menino, quinto filho de Jeanne, camponesa e empregada de Marguerite, sempre surrada pelo marido Henri, mesmo quando estava grávida, vai – como diria Cora Coralina – tocando o coração.

 

Autora de diversos artigos e livros sobre psicanálise e educação, Maria Cristina Kupfer surpreende com o seu primeiro romance.

Trilhar a literatura – mesmo não tendo tempo para se dedicar atentamente à leitura dos grandes escritores – é um desafio, mas que flui diante do seu conhecimento e pesquisa sobre a história e o comportamento do ser humano.

“Acho que a literatura transmite mais do que a linguagem científica, porque usa mais nossa própria linguagem, sendo a ciência um artifício que engessa, quantifica, esquarteja em partes minúsculas a experiência humana”, justifica.

“E aprendi isso com Freud, um homem que se serviu bastante da literatura, do teatro e da mitologia para transmitir seus conceitos. Penso nessa questão há muito tempo.”

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O livro da professora Maria Cristina Kupfer (Reprodução)

Para escrever o romance, Maria Cristina buscou o formato dos diários, que permite escrever em uma linguagem livre e, ao mesmo tempo, intimista, deixando fluir o cotidiano do narrador na sua essência.

Os três personagens  – Marguerite, Arthur e Charlotte – se revelam através de seus diários.

É o leitor quem vai descobrir a história, os sentimentos, as percepções e o pensamento diante do mundo de cada um deles cruzando os diários separados por capítulos.

“Uma das personagens centrais, Marguerite tem, é claro, muito de minha trajetória como psicanalista de crianças. Mas foi interessante o exercício de situá-la no século 19”, conta a professora.

“Isso me obrigava a criá-la dentro de um ambiente religioso, em uma época em que pouco se sabia sobre crianças, e ainda menos sobre autistas. Tentei mostrar o processo de apropriação que Marguerite foi fazendo da compreensão de Arthur, devagar, pensando, envolvendo-se com ele, cheia de dúvidas.”

 

Em seu diário, Marguerite, que escreve ao nascer do sol, conta sobre a sua decisão de não se casar, de não ter filhos, e a necessidade de acolher Arthur, que fica órfão de pai e mãe e distante dos irmãos.

“Havia situado a ação no final do século 19 porque pretendia sustentar a ideia de que o autismo já está entre nós na Idade Moderna, é filho dela, embora só tenha frutificado depois da segunda metade do século 20, uma época propícia à sua proliferação.

Isso fez com que fosse obrigada a falar de minha teoria de modo livre e limpo dos jargões e mentalidades do início do século 21.

Foi divertido colocar ideias avant la lettre na boca de uma mulher culta, mas religiosa, numa época que era a mesma de Freud.”

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Todos os personagens do livro foram inspirados em pessoas reais.

E Arthur, em seu diário, escreve a sua história com detalhes que, ao ser observada também no diário de Marguerite e de Charlotte – sua amiga de infância que também ficou órfã e foi adotada pela narradora -, ganha uma nova dimensão.

 

Arthur, ao contrário do que a maioria imagina, percebe o mundo.

Aficionado por pedras desde criança, ele, nas suas diferenças, compara: “Sou um diamante”. Também registra seu interesse pela literatura.

Em seu diário, comenta: “Já havia lido Eneida, de Virgílio, e depois A Divina Comédia, de Dante, mas jamais consegui abarcar tamanho amor nutrido por uma mulher que ele havia encontrado uma única vez!”.

 

Maria Cristina Kupfer explica que integrar Arthur no século 19 e em uma comunidade na França é uma tentativa de oferecer um recuo no tempo e no espaço ao leitor.

“Acredito que essa estratégia permite que as pessoas vejam o autista de uma perspectiva diferente daquela organicista e reducionista, que é dominante nos dias atuais”, comenta.

“Assim, Arthur tem de certa forma um caráter político, no sentido de que faz resistência à supressão do sujeito no discurso da ciência.”

 

Em 1990, a professora criou, dentro do Serviço de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da USP, um centro de atendimento e pesquisas denominado Pré-Escola Terapêutica Lugar de Vida.

“Esse centro teve como modelo uma instituição, situada em Bonneuil-Sur-Marne, na periferia de Paris, descrita pela psicanalista francesa Maud Mannoni no livro Lieu pour Vivre, onde fiz um estágio”, conta.

“Hoje independente, o Lugar de Vida é um centro de educação terapêutica, conceito que desenvolvi ao longo do tempo, que atende crianças e seus pais. Oferece cursos de formação e dá assessoria a serviços públicos e escolas privadas.”

 

Maria Cristina ressalta que outras instituições estão surgindo no cenário brasileiro.

Ela espera que o livro Arthur, um Autista no Século XIX possa contribuir para essa expansão.

“Minha expectativa é que todos gostem de ler Arthur e que o livro ajude a trazer de volta a psicanálise para os cursos de Psicologia, pelas mãos dos estudantes que o terão lido e ficarão com vontade de entender melhor como é essa visão.

Gostaria também de alcançar pais de crianças autistas.”

Fonte: Jornal da USP

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